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Setembro 15, 2006

Erro 500.

O Escrita no Blogger está em baixo (www.escrita.blogspot.com)

Ainda me obrigam a mudar para este definitivamente… :/

Bom, mas deve ser passageiro.


CONTINUAÇÃO DAS AVENTURAS DO SR. BENTLEY

Junho 18, 2006

O senhor Bentley oferece-se para liderar um movimento de resistência civil.
- Contra as multas. Os filhos da puta dos políticos. E as putas das mãezinhas. Vamos incendiar Portugal, meus lindos!, com o nosso rigor e honra, com a nossa Exigência Ética!
O senhor Bentley está no Ágora, modestamente povoado. A maioria resta em casa a fritar os miolos assistindo ao Mundial.
- Às vezes tem-se neurónios a mais – admite ele, sério.
Os presentes miram sub-repticiamente, emitem sons de desprezo pelos lábios, agitam as mãos em movimentos moderados e continuam a dialogar em voz baixa com o camarada do lado.
Ó, o Monsieur Bentley – ignorado!
Isso não se faz a um pobre velhinho!
Ele não se incomoda.
- Proponho – (continua) – uniforme! Para sermos de imediato reconhecidos!
(E mais rapidamente recolhidos como ganadaria para ser marcada a ferro quente, mas isso ele não diz.)
- Protestemos juntos, meus lindos, uniformizados! Ah, cá está ele – observa uma trouxa ao canto da parede.
Bentley muda-se à frente de toda a gente (não tem mesmo vergonha nenhuma, a bisca, mas isto, os velhos, são uns desavergonhados. O senhor Bentley considera ter o direito de agir como se a velhice o isentasse do pudor).
- Sou velhinho. A vergonha é para os novos.
Canalha.
- Cá está ela, a farda do nosso Movimento de Resistência Civil.
Mini-saia de aspecto plástico, cor-de-rosa choque, sapatos femininos da mesma cor de salto agulha. O brilho fere os olhos.
O suave ronronar de barulho de fundo no Ágora.
Cessa.
- Vamos, companheiros! Allons-y, camaradas! En route!
Abre os braços como um Cristo obsceno. As pernas são estacas de bambu, finíssimas, brancas como as de um albino. E sem pelinhos. Ele nem tem pelinhos nos colhões, reparem. Antigamente era uma grande tristeza (not), mas hoje, Homem Iluminado, Buda Vivo, Funcionário da Emel em Part-Time – superou o trauma.
Correram-no, não à pedrada (como é costume), mas à galhofa.
- Olhó Periquito Pomposo!
- Vais pá naite, méne?!
- Vai masé pó Intendente sacar a jorna aos emigrantes do Leste!
- O cornudo gosta é dos outros, das PALOP’s.
- E de putos.
- EU ABOMINO CRIANCINHAS!
Abespinha-se e com razão. Alça no ar com a ajuda do guarda-chuva aberto, a perna aberta, a formar um pavoroso V invertido, raquítico de hastes. (Falta de vitaminas.)
- Hereges – choraminga. – Vou-me. Noutro sítio encontrarei seguidores à altura.
- Vai lá, vai. Não te esqueças é da camisinha! Ah, ah, ah!
- Da camisinha de algodão porque está frio, ainda te constipas e apanhas a puta de uma pneumonia e depois Morres!
O ribombar de risos só o deixa à entrada do Metro.
Arranja lugar sentado. Um adolescente com pena cede-lho. “Coitado. A Alzheimer é fodida.”
O senhor Bentley senta-se, compenetrado e absorto, de rosto limpo e só não dá um tabefe ao rapaz por desconhecer o teor do juízo.
Hoje é quarta-feira e ele, ComoTodaAGenteSabe, tem de purificar a alma, deter-se na contemplação da Impermanência da Vida e da Morte.

No Cemitério

- Ah-Ah-Ah! O cemitério! – exclama em exuberante alegria. A noite escura revela os contornos baços das sepulturas. Um grilo canta. Resfôlegos e murmúrios entrecortados enchem a espaço a noite.
- Olá… – murmura Bentley.
Agacha-se. Fecha o chapéu. Desliza, qual felino, até à fonte dos sons estrangulados. E antes de ver a origem já ele sabe o que ocorre.
Um rapazote, magro, dos seus vinte anos, com um rabo luminoso e redondo, trabalha furiosamente a mulher cadáver que desenterrou. Está fresquinha, a gaja. Não deve ter estado mais de cinco dias enterrada.
O senhor Bentley tem pena de não ter trazido holofote.
“Para eventos destes são necessários holofotes. E honras de Estado, caralho.”
Pop.
Desaparece num estrondo mínimo. Reaparece na Residência Oficial do Esticadinho. Arranca o esqueleto mirrado da cama.
- Marucha! Marucha! – implora de mãos estendidas enquanto Bentley o arrasta de pijama e barrete para outro.
Pop.
Ora eu não sei como o diacho do homem fez, mas após algumas dezenas de pops não é que há uma ala formada frente ao jovem fornicador de cadáveres, todos perfeitamente alinhados, alguns no acto da continência? Só o rosto em pânico silente é testemunha de que a postura erecta ou a saudação militar não são actos naturais. O vestuário também não ajuda: envergam pijama inteiro, ou só as calças, camisa de noite florida (o Paulinho), ou estão nus, e estremunhados, cheios de ramela, o penteado desfeito ou com rolos no cabelo.
Bem tentam as biscas descolar-se da posição de sentido forçado ou descerrar lábios, só a respiração aos arrancos, forte, é prova dos esforços, mas nada feito. Pregados ao chão como lindas figurinhas de Estado, ai, catitas! Até lá está o Narigão do Primeiro! (O Primeiro não pôde vir, o senhor Bentley compreendeu. Trouxe a penca que cumpre às mil maravilhas a função, aliás, como tem cumprido as outras. O Sardas também foi dispensado. Estava na Channel à cata de cachecóis chiques.)
- Sem cachecol elegante não se grita a plenos pulmões! – disse o senhor Bentley.
Às sardas.
Teve vai-não-vai para levar as sardas junto, mas mudou de ideias.
- Um ruivo sem sardas não é natural.
Ora o jovem fornicador (com um lindo rabinho branco, duas meias luas simétricas e gordas, rabiosque quase de gaja, o senhor Bentley sentiu uma atracção sáfica por ele – sáfica pois que o seu lado feminino desejou as meias luas femininas do fornicador de cadáveres, porém passou-lhe, graças a Deus, há coisas que nem eu seria capaz de descrever), o jovem fornicador, dizia, ora entra e sai da coninha apertadinha – morta, pútrida e fétida – da defunta sem conseguir parar, preso num movimento perpétuo.
(Ó!, será a Máquina do Movimento Perpétuo?!, demanda-se o Enraba-Passarinhos. Chamem os engenheiros da Nasa! Alertem as companhias petrolíferas! Temos a crise energética resolvida! Foder cadáveres!)
Mas não é a mítica Máquina do Movimento Perpétuo, peno informar.
“Ó…”, desconsola-se.
Holofotes iluminam os glóbulos alvos e as figuras de Estado.
Ficam ali a noite toda. No dia seguinte fazem manchete nos grandes jornais nacionais. A TVI manda uma equipa televisiva. É a única com colhões para mostrar a imagem.
Bem tentam despregá-los, quebrar a paralisia. Nada feito. Parecem feitos de pedra. Um ou outro mija-se e emporcalha a roupa. O Fornicador do Movimento Perpétuo, bom, a ele, cortam-lhe o instrumento e resolve-se o assunto (afinal é um gajo qualquer, não uma Figura de Estado. Ao Narigão Primeiral mostram maior respeito). Remetem-no às urgências do São José e depois à prisão.
O senhor Bentley safa-se (pulha). Vai em peregrinação a Fátima para lhe perdoarem os pecados (os por fazer, não os antigos).
Antes, porém, a noite caía e lentamente a rigidez abandonava o corpo das figuras, passa pelo cemitério, agarra no cadáver fodido (tinham posto um oleado por cima) e obriga a que todos lhe beijem a boca apodrecida.
- Foi bonito.
Ele só quer que os tipos compreendam o que ele compreendeu há muito: a morte toca a todos. Também os senhores terão a boca pútrida e, quem sabe, com sorte, o seu cadáver será desenterrado para lhes irem ao cu.


Artigos sobre escrita

Junho 18, 2006

Bola

Junho 17, 2006

- O cabrão do Ricardo tinha de defender aquela…
(Diz o senhor Bentley enquanto enfia outra agulha nos olhinhos do gajo.)

- NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOO!
(Vocifera o senhor Bentley quando vê o marcador: dois zero a favor de Portugal.)

- SEUS COXOS! PEÇAM A AJUDA DO PROFETA!
(Grita ele.)

Err, eu vou masé lavar a loiça e deixar o senhor Bentley entretido com as bonecas de voodoo. Há alturas (como esta) em que é melhor a gente não se meter com ele…


Só…

Junho 17, 2006

… me lembrei que era Aquele Dia quando houve uma explosão de entusiasmo no meu bairro.

- É melhor ligar a tv e ver o replay…

Merdinha. Podia ter ido ao cinema :(


Vibes

Junho 17, 2006

Não é que o sacana do Bentley está a enviar “positive vibes” para a equipa do Irão…?

o_0

E o mantra é: MarquemMarquemMarquemSacanasMarquem.

TrêsBoladasTrêsBoladasPonhamOFigoAChorar.

Pulhazinho, o gajo.


Memória

Junho 17, 2006

Merda.

Esqueci-me que hoje podia ter ido ao cinema >:(

Bom, se Portugal ganhar ainda devo poder ir para a semana (ou lá quando o outro jogo for).

Ah: o Sr. Bentley fez uma voodoo doll. Quer que Portugal PercaPercaPercaPerca.
Mas ele é mau e pouco pa-tri-ó-ti-co.


Artigos sobre escrita

Junho 17, 2006

http://www.sfwriter.com/ow05.htm
http://www.sfwriter.com/ow04.htm (Show, don't tell)
http://users.wirefire.com/tritt/tip3.html (keep it active)
http://www.theromanceclub.com/writers/articles/art0029.htm

In other news: hoje sonhei que o meu editor me dava um livro do Pepetela.
E que eu fazia um bolo Enorme e comia duas fatias Enormes. Fiquei enjoada (no sonho).
O bolo sabia a pêra…
0_o

Tipo…
(Vocês sabem há quanto tempo é que eu não como bolos? De vez em quando tenho sonhos destes: ou como bolos, gelados, chocolate. No outro dia foi massa.)


BENTLEY BALNEAR

Junho 16, 2006

Aparentemente hoje é um grande dia!, exclama o Sr. Bentley. Os pretinhos vão dançar com os lusinhos, hop-hop, lari-lariii, hop-di-dup-hop!!
Eu gosto de pretinhos, diz o senhor Bentley com a voz cavernosa que se aloja no cérebro, voz radialista, gótica.
E de proto-pretinhos, continua a voz.
É gajo racista, já se vê, mas ele pensa que não. Está seguríssimo que não.
- Um preto é um preto é um preto – assegura. – Deixará de ser preto por lhe chamarmos… Africano? Europeu? Lisboeta? NEGRO?!
Ele acha que não.
Estabelecemos que o PNR já quis o Sr. Bentley para porta-voz, mas não deu em nada. O Enraba-Passarinhos roubou pedras da calçada e fez pontaria às carecas luzentes dos wannabe luso-nazis e foi giro. Foi bonito de ver. Muita cabeça partida, o vermelho sanguíneo a colorir o passeio, a roupa, as cabeças de bolas de bilhar.
- Quiiiinhentas e seteceeenntas e nove! – diz, do alto, ao escarrar na criancinha que faz uma fita nos braços da mãe: queria levar o escorrega para casa e recusava descolar a garra infantil da borda.
- Ó! – disse a mamã e fugiu a toda a brida para o carro (a gasolina, reparou ele. Negro, pequenote, com uma cadeirinha no espaço traseiro exíguo).
A quantidade de escarros que ele desperdiçou em criancinhas. Anda com vontade de gastá-los nas cabeças luzentes luso-nazis, colori-las de verde e amarelo, material biológico tóxico. Fazia uma instalação, um happening artístico – luso-nazis escarrados, braços ao alto, alinhados, autor: Sr. Bentley, o Sodomizador-Mor de Pássaros. Ah, e as mamãs, as putinhas das mães dos nazis, também elas! Sim. As… “vertically challenged mummies”. A chorar. Ou não.
Mas cada vez que vê a puta de uma criancinha lá vem o arranco do fundo da garganta, impossível contê-lo e PAF – aterra na bochecha do crianço. Ou nariz. Ou olhinhos. Às vezes orelhas. Uma vez errou e foi na garganta.
O Sr. Bentley envergonhou-se com a falta de pontaria. Regressou cabisbaixo a casa. A ratazana vizinha perguntou:
- Então, orelha murcha?
- Preciso de cirurgia laser – choramingou Bentley. – A vista não é o que era antigamente.
Mas hoje, dia fabuloso!
Vai à praia.
E, bandeirolas em riste, (só lhe falta o touro, uma boa cornada não lhe fazia mal nenhum), vê um GNR ao fundo. Sozinhito.
- Hihihi.

Rapta o desgraçado do GNR.
Transporta-o nos ares, cabo do chapéu acoplado à gola do sobretudo, e os dois braços a segurar o GNR gorducho pelos sovacos.
- Dieta não te fazia mal, pá.
- AAAAHHH! LARGA-MEEEEE!
- Continua a barafustar que é o que eu faço.
Na praia larga-o aos trambolhões e em seguida põe-se a arrastar malta para a água.
- Agora MULTA! – exige Bentley ao gorducho, segurando-o pela cintura das calças.
- Vá lá, meu cabrão: MULTA. Multamultamultamultamulta.
E ele multa. Mas há um senhor doutor político deputado fiscal-de-linha engenheiro que mostra a declaração passada pela Junta de Freguesia e assinada pelo médico de família do Centro de Saúde que o isenta de multas balneares.
Tem de ir ao banho a qualquer hora, com ou sem bandeira hasteada, por razões de saúde. Quais, não especifica o dito atestado.
- Eh lá, eh lá! – gritam os colegas do GNR gorducho que acorrem em auxílio.
O Sr. Bentley plana para cima e assiste à razia de multas passadas pelos colegas (o gorducho entretanto sentou-se no areal e chorou, olhando as calças molhadas e os ombros encolhem-se cada vez que se atreve a mirar o céu).
- Eu tenho um atestado, um atestado – diz o estrelicadinho senhor doutor deputado. Deixam-no em paz. A este nem exigem documentos: BI, carta de condução, número de contribuinte. Seguro do carro. Atestado de virgindade da avozinha. Impressão digital do nariz, orelha e queixo. Aos outros banhistas, Que-Não-Eram-Deputados, obrigam a apresentação de documentos, alguns têm de caminhar até ao carro.
- Ah… – diz o senhor Bentley inspirando a maresia. As ondas ribombam anímicas, desfazendo a escassa espuma branca no areal.
- Caralhinho… – diz porque há muito não profere palavrões e a malta esquece-se, pá.
A malta esquece-se.


ARMADURA

Junho 16, 2006

 

 

Tenho uma grande armadura dentro do meu coração; feita de fios entrelaçados, às vezes de oiro, outras prata, hoje de cordel esgaçado.

 

Uma armadura que ecoa como sapatos de salto alto nas ruas de madrugada.

 

É negra negra negra – hoje cinzenta. E é tão bonita.

 

É uma bela armadura cujo frágil caule verde, tenro, se espraia até ao chão e busca alimento na terra. Desde que a tirei do vaso rego-a para não morrer.

 

Tenho um pequenino coração dentro da minha grande armadura. E às vezes o sol brilha nele. Como entrou desconheço porque o material é antigo, herdado de cavaleiros medievais, e passa sempre na inspecção. Nenhum raio solar lá devia entrar. Talvez as formigas, que descobrem buraquinhos minúsculos, tenham descoberto passagem.

 

De resto o meu coração por vezes sorri e eu talvez deva deixar as formigas em paz.

 

13 Junho’06